O podcast mais desajustado da podosfera

Anakin Skywalker: A perda que leva ao nascimento

Loading

A Queda do Herói

Alguns personagens não nascem vilões, mas são conduzidos e seduzidos pelo mal.

Anakin Skywalker é um dos maiores representantes deste grupo peculiar.

Antes da máscara que o tornaria um dos maiores ícones de vilania da cultura pop e da sétima arte, havia um garoto inquieto, apaixonado e amedrontado.

A saga Star Wars, com toda a grandiosidade que uma ópera espacial pode ter, é também um estudo íntimo sobre a mente humana: um estudo sobre medo, sobre trauma, sobre poder, sobre respeito, sobre amizade, sobre resiliência, sobre perdas e, essencialmente, sobre como a necessidade de controle pode corroer até mesmo intenções vistas como nobres.

Anakin não é apenas um Jedi que caiu. Ele é o retrato simbólico da luta entre o desejo do amor e o temor da perda.

O símbolo do salvador que foi inspirado na história de salvação retratada em muitos livros antigos, dentre ele a Bíblia cristã, é aqui puxado para a queda diante da incapacidade de lidar com a própria dor.

O medo como força motriz

Desde criança, Anakin viveu e conheceu o desamparo.

Foi escravo, cresceu sem pai e viu a mãe morrer em seus braços. A dor da perda o marcou com uma ferida profunda que nunca cicatrizou.

Para muitos, o medo é um mecanismo de alerta. Para Anakin, tornou-se o eixo da existência.

O medo de perder transformou-se em necessidade de controle.

E o controle, quando absoluto, é a negação do amor… afinal, amar envolve aceitar a imprevisibilidade do futuro, pois não podemos dominar o objeto do nosso amor, como Anakin tentou… e falhou.

Tal contradição é o cerne do seu sofrimento: o mesmo impulso que o fazia amar com intensidade foi o que o levou a destruir o que amava.

Na tentativa de impedir a morte, ele mata.

Na tentativa de evitar a dor, ele cria a dor.

A profecia que deveria ser o equilíbrio da Força se cumpre de forma trágica, porque tal equilíbrio não existiu dentro dele.

A passagem para a escuridão

Sob o olhar da psicopatologia, o percurso de Anakin pode ser compreendido como a escalada de um quadro de desorganização emocional associado a traços narcisistas e de dificuldade de controle de impulsos (quem quiser ler mais sobre isso, recomendo outro texto que escrevi lá no Quebrando o Controle).

O narcisismo se mostra, aqui, não no sentido da vaidade estética, mas da estrutura interna que não tolera o abandono.

O mundo gira em torno da necessidade de ser amado, reconhecido e compreendido.

Quando sente que o Conselho Jedi não confia nele, Anakin não tenta conquistar a confiança ou tampouco aceita apenas a discordância, ele se sente traído, com sua estrutura narcísica sendo abalada junto com o abalo que Yoda sentira na Força.

Quando vislumbra a morte de Padmé, a fantasia de perda aciona novamente o trauma vivido em sua infância e ele passa a buscar o impossível, aquilo que mais lhe afastara do amor: o controle sobre sua vida e sobre a de todos.

Palpatine, com a voz mansa e sedutora, em perfeita metáfora das provações resistidas por Cristo no deserto diante do diabo, funciona como o espelho que reflete o pior de Anakin e o convence de que o medo é justificável, que o amor pode ser protegido pelo poder.

É o momento em que o sintoma dá lugar a uma ideologia.

Anakin, que era visto como o salvador, diferente daquele retratado na Bíblia cristã, aqui se torna a antítese do bem, pois permite ao mal a sedução do poder e cede à vã promessa de ausência de dor.

A personalidade dilacerada

Anakin Skywalker e Darth Vader não são pessoas diferentes, mas partes de uma mesma estrutura psíquica fragmentada pela culpa, pela dor e pela perda.

Quando o trauma se torna insuportável, a mente cria uma persona para suportar aquilo que a original não podia olhar. A máscara esconde um rosto deformado e uma pessoa que já não existe mais.

Vader é um escudo, um casulo que oferece uma subvida entre o amor e a destruição.

É a couraça de aço que o protege do desespero, da lembrança e de suas perdas.

Por trás da máscara, há o silêncio de quem não suporta a própria dor.

A respiração, ruidosa e mecânica, é quase o símbolo disso: é o somo do corpo que sobrevive, mas da alma que não consegue mais respirar sozinha.

Último Ato

Anakin Skywalker não caiu porque era mau.

Caiu porque tentou vencer o medo com poder, e o poder é o oposto da vulnerabilidade e da doação que o amor exige.

Sua redenção, no final, é menos sobre o bem e o mal e mais sobre a reconciliação com o que restava de humano dentro da armadura.

Ele só se liberta quando deixa o controle fugir de suas mãos, quando permite que o amor volte a ser apenas amor, sem posse, sem garantias.

Anakin nos lembra que o medo de perder pode nos tornar prisioneiros do que tentamos salvar.

E que, às vezes, o verdadeiro equilíbrio não vem do domínio da Força, mas da aceitação da fragilidade e da vulnerabilidade humana.
Na história bíblica, Jesus nos mostra o amor pela humanidade quando abre mão do corpo material e aceita a morte como redenção.

Anakin, com o simbolismo que George Lucas trouxe ao personagem, reequilibra a Força quando aceita que o poder é algo que não pode ser contido nas mãos de uma pessoa e que aquele menino que sonhava em dirigir pods e oferecer algo àqueles que amava nunca deixou de existir.

Uma resposta

Deixe um comentário para José Fernandes da Silva Neto Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *